11.27.09
octaedro
“não é possível que nos separemos assim, antes de nos termos encontrado.”
- manuscrito achado no bolso, Julio Cortázar
eu não sou eu, nem sou o outro
Indivíduo e sociedade só existem na relação;
a relação é o indivíduo, as relações são a sociedade
11.19.09
everybody’s changing
So little time
Try to understand that I’m
Trying to make a move just to stay in the game
I’m trying to stay awake and remember my name
But everybody’s changing and I don’t feel the same
- Keane
11.16.09
de algum caderno, sobre qualquer coisa
se por um lado você não tem lado, você também não tem dentro, tudo é fora, tudo é ambiente, nada é você, uma brisa perpassa, um ar quente e pesado estagna. nada sendo, se é aquilo que sempre temeu, nunca se evitou e pouco se importa.
11.14.09
octaedro
“… pela primeira vez em mim mesmo como num incrível país estrangeiro.”
- manuscrito achado no bolso, Julio Cortázar
11.13.09
Amor: esse serviço não está disponível no momento (ou esse serviço não está disponível para sua localidade)
amor é investimento de tempo e tempo é uma coisa que eu, por enquanto, não tenho. sem contar que tempo é dinheiro e que dinheiro não é uma coisa que dá pra sair assim desperdiçando por aí.
sempre um pouco mais monstro
lembro que pra ela não admitir e revelar sentimentos antes de algum feedback positivo por parte minha, ela apenas dizia que eu encantava demais, e por nós nos conhecermos relativamente a pouco tempo, parecia uma coisa tão sincera, era tão bom e tão leve, que até hoje quando eu penso nisso, inevitavelmente me sinto um pouco culpado por ter dado poucas explicações sobre a minha maneira de agir, ainda mais porque os caminhos que eu escolhi não foram lá muito virtuosos, fui para onde senti que era melhor pra mim e provavelmente despejei a carga de responsabilidade em pessoas inocentes, bonitas e que encantavam demais, despedacei planos e dissimulei tudo com uma feição confusa, ora digna de um coitado.
A última lembrança (ou o homem que por cansaço desistiu)
Era outubro do ano 2000, em um dia, não sei ao certo qual, que eu teria uma apresentação escolar, decidiram por mim que eu deveria ir pra Curitiba passar um tempo perto do meu pai. Então eu e meu irmão fizemos as malas para um período indeterminado e fomos acompanhados por uma das minhas tias favoritas, chegamos ainda era madrugada, estava escuro, pegamos um taxi e fomos para o apartamento, lá, minha mãe e minha irmã já estavam nos esperando, embora todos os mais velhos estarem com uma cara visivelmente abatida, nada de relevante foi dito, falamos um pouco sobre o tempo, sobre como fizemos boa viagem, e fomos assistir tv.
Depois do almoço havíamos combinado de ir para o hospital visitar meu pai, e mesmo ele estando em um apartamento do cti, entramos, não me lembro por que, sem maiores problemas no quarto. Ele não tava dormindo, mas aparentava um cansaço descomunal; sua pele pálida e seus olhos amarelos o deixavam ainda mais desconsolado. Parecia que tudo o que ele fazia era a custa de muitos esforços, de modo que até o ato de permanecer acordado era uma luta incessante.
Fiquei alguns minutos no quarto, inicialmente só com meu irmão e minha tia, conversamos algumas banalidades, ele pediu para a gente dar um beijo nele, e eu tive tanto medo de abraçar ele, como se isso fosse de alguma forma pudesse deixá-lo ainda mais vulnerável. Eu tremia de medo, de tristeza, era assustador olhar para aquele grande homem grande totalmente fragilizado. Ele respirava, e a cada inspiração ele se cansava ainda mais. Tudo o que ele dizia era voltado para esse grande esforço que consistia em continuar consciente.
Minha mãe entrou no quarto e deu uma ligeira ajeitada nas coisas, organizando tudo com notória eficiência, era de uma força incompreensível, apesar de todo o sofrimento e toda fragilidade que ela transpareceu até o momento antes de entrar no quarto, ela entrou de peito cheio e com uma cara que tentava passar tranqüilidade para o meu pai, além da cara, ela tentava animar ele com notícias que transmitiam esperança. Acho que durante todo esse tempo eu fiquei de um lado da cama de mão dadas com a dele, enquanto o meu irmão permanecia na outra, não havia muito que dizer, os assuntos se esgotavam rapidamente e sobrava apenas aquele mundo de coisas para assimilar, enfermeiras entrando, dando remédios, preparando-o para exame, aplicando injeções que custavam mais de três mil reais, enfim, muitas coisas, muitas coisas de adultos para ser assimilado.
Ele falou que ia fazer um exame, que teriam que levá-lo do quarto para outra ala do hospital, eu tentei entender o tipo de exame, mas não tive maturidade suficiente. Ainda ficamos no quarto assistindo ele dormitando, ora ou outra respondendo ou fazendo alguma pergunta. Depois de um tempo, entrou um médico no quarto e disse que nós deveríamos sair, pois estava na hora do exame, saímos e ficamos em uma das salas de espera, eu fui pra uma janela distante de todo mundo da minha família, e fiquei pensando, tentando manter o controle.
No horário do exame o vimos sair, com a cama, do quarto em direção ao elevador, nenhum de nós conseguiu agüentar o choro, todos nós, desolados, fomos para perto da cama e o abraçamos, choramos descontroladamente e ele dizia “é só um exame”, “é só um exame”, “está tudo bem”. Não sei ao certo porque o choro apareceu, acredito que tenha sido pelo impacto que essa imagem tinha, um homem pai de família sem forças para se manter de pé, eram todos aqueles pensamentos que ninguém se atrevia falar que ganhavam vida. Na espera do elevador, ele ainda lançou um olhar de impotência e cansaço para nós, deixando claro que não era mais capaz de lutar.
Ainda ficamos no hospital, minha mãe tinha que cuidar de algumas burocracias, voltei pra minha janela, e chorei aterrorizado pela possibilidade dele não sobreviver. Voltamos para o apartamento e decidiram por nós que já estava em tempo de voltar para nossas rotinas, que não havia mais nada para ver ali, que duas crianças não precisariam acompanhar toda essa rotina amarga.
