10.31.08

TRANSFORMAÇÕES (Uma fábula)

Enviado em Sem-categoria tagged às 3:29 pm por joao henrique

- Caio Fernando Abreu.

“Feito febre, baixava às vezes nele aquela sensação de que nada daria jamais certo, que todos os esforços seriam para sempre inúteis, e coisa nenhuma de alguma forma se modificaria. Mais que sensação, densa certeza viscosa impedindo qualquer movimento em direção à luz. E além da certeza, a premonição de um futuro onde não haveria o menor esboço de uma espécie qualquer não sabia se de esperança, fé, alegria, mas certamente qualquer coisa assim.

Eram dias parados, aqueles. Por mais que se movimentasse em gestos cotidianos – acordar, comer, caminhar, dormir, dentro dele algo permanecia imóvel. Como se seu corpo fosse apenas a moldura do desenho de um rosto apoiado sobre uma das mãos, olhos fixos na distância. Ausentou-se, diriam ao vê-lo, se o vissem. E não seria verdade. Nesses dias, estava presente como nunca, tão pleno e perto que estava dentro do que chamaria – tivesse palavras, mas não as tinha ou não queria tê-las – vaga e precisamente de: A Grande Falta.

Era translúcida e gelada. Tivesse olhos, seriam certamente verdes, com remotas pupilas. À beira da praia certa vez encontrara um caco de garrafa tão burilado pelas ondas, areias e ventos que cintilava ao sol, pequena jóia vadia. Apertou-o entre os dedos, sentindo um frio anestésico que o impedia de perceber as gotas de sangue brotando mornas da palma da mão. Era assim A Grande Falta. Pudessem vê-lo, pudesse ver-se, veriam também o sangue, ele e os outros. Acontece que tornava-se invisível nesses dias. Olhando-se ao espelho, sabia de imediato que estava dentro Dela. No vidro, além dele mesmo, localizava apenas um claro reflexo esverdeado.

Ela estava tão dentro dele quanto ele dentro Dela. Intrincados, a ponto de um tornar-se ao mesmo tempo fundo e superfície do outro. Amenizava-se às vezes no decorrer do dia, nuvens que se dissipam, turvo de água clareando até o cair da noite surpreendê-lo nítido, passado a limpo, passado a ferro. Então sorria, dava telefonemas, cantava ou ia ao cinema. Mas em outras vezes adensava-se feito céu cada vez mais escuro, turvo agitado subindo do fundo, vidro bafejado. Sem dormir, fosforescia entre os lençóis ouvindo os ruídos da madrugada chegarem como abafados por uma grossa camada de algodão. Dissipava-se ou concentrava-se na manhã seguinte e, concentrando-se, não era uma manhã seguinte, mas apenas uma fluida e mansa continuação sem solavancos.

Seu maior medo era o destemor que sentia. Íntegro, sem mágoas nem carências ou expectativas. Inteiro, sem memórias nem fantasias. Mesmo o não-medo sequer sentia, pois não-dar-certo era o natural das coisas serem, imodificáveis, irredutíveis a qualquer tipo de esforço. Fosse íntimo das águas ou dos ares, teria quem sabe parâmetros para compreender esse quieto deslizar de peixe, ave. Criatura da terra, seu temor era quem sabe perder o apoio dos pés. E criatura do fogo, A Grande Falta crepitava em chamas dentro dele.

Sua invisibilidade no entanto não o invisibilizava: encadernava-o meticulosa em um determinado corpo e uma voz particular e uns gestos habituais e alguns trejeitos pessoais que, aparentemente, eram ele mesmo. Por isso não é verdade que não o veriam. Veriam e viam, sim, aquela casca reproduzindo com perfeição o externo dele. Tão perfeito que nem ao menos provocava suspeitas aumentando as pausas entre as palavras, demorando o olhar, ralentando o passo daquele falso corpo.

Atrás da casca, porém, o cristal incandescia. Debaixo da terra, fogo-fátuo soterrado tão profundamente que a pele nem reluzia.

Alguma coisa que jamais teria, e tão consciente estava dessa para sempre ausência que, por paradoxal que pareça, era completo nesse estado de carência plena. Isso acontecia apenas quando dentro Dela, pois ao desembarcar, em vez de sorrir ou fazer coisas, freqüentemente limitava-se a chorar penoso como se apenas a dor fosse capaz de devolvê-lo ao estágio anterior. A dor desconsolada e inconsolável, em soluços que o sacudiam cada vez mais fortemente, a cada um deles partindo-se a casca, quebrando-se a moldura, rachando-se o vidro, apagando-se o fogo.

Como uma outra espécie de felicidade, esse desembaraçar-se de uma também felicidade. Emerso, chafurdava em emoções: tinha desejos violentos, pequenas gulas, urgências perigosas, enternecimentos melados, ódios virulentos, tesões insaciáveis. Ouvia canções lamurientas, bebia para despertar fantasmas distraídos, relia ou escrevia cartas apaixonadas, transbordantes de rosas e abismos. Exausto, então, afogava-se num sono por vezes sem sonhos, por vezes – quando o ensaio geral das emoções artificialmente provocadas (mas que um dia, em outro plano, aquele da terra onde, supunha, gostava de pisar, aconteceriam realmente) não era suficiente – povoado com répteis frios, a tentar enlaçá-lo com tentáculos pegajosos e verdes olhos de pupilas verticais.

Não saberia dizer com certeza como nem quando aconteceu. Mas um dia – um certo dia, um dia qualquer, um dia banal – deu-se conta que. Não, realmente não saberia dizer ao menos do que dera-se conta. Mas foi assim: olhando-se ao espelho, pela manhã, percebeu o claro reflexo esverdeado. Está de volta, pensou. E no mesmo instante, tão imediatamente seguinte que confundiu-se com o anterior, cantava, novamente ele mesmo. No segundo verso, pequena contração, tinha novamente entre os dedos o caco de vidro luminoso. Mas antes que a mão sangrasse, havia preparado um drinque, embora fosse de manhã, e bebia lento, todo intenso. Antes de engolir o líquido, seu corpo ganhou vértices súbitos, emoldurando o desenho de um rosto apoiado sobre uma das mãos abertas, olhos fixos na distância.

Foi um dia movimentado, aquele. Sua casca partia-se e refazia-se, entardecer sombrio e meio-dia cegante intercalados. Fumou demais, sem terminar nenhum cigarro. Bebeu muitos cafés, deixando restos no fundo das xícaras. Exaltou-se, ausentou-se. No intervalo da ausência, distraía-se em chamá-la também, entre susto e fascínio, de A Grande Indiferença, ou A Grande Ausência, ou A Grande Partida, ou A Grande, ou A, ou. Na tentativa ou esperança, quem saberia, de conseguindo nomeá-la conseguir também controlá-la.

Não conseguiu. Desimportou-se com aquilo. Tomado a intervalos pelo anônimo, atravessou a tarde, varou a noite, entrou madrugada adentro para encontrar a manhã seguinte, e outra tarde, e outra noite ainda, e nova madrugada, e assim por diante. Durante anos. Até as têmporas ficarem grisalhas, até afundarem os sulcos em torno dos lábios. Houvesse uma pausa, teria pedido ajuda, embora não soubesse ao certo a quem nem como. Não houve. Mas porque as coisas são mesmo assim, talvez por certa magia, predestinações, sinais ou simplesmente acaso, quem saberá, ou ainda por ser natural que assim fosse, e menos que natural, inevitável, fatalidade, trágicos encantos – enfim, houve um dia, marco, em que o tocaram de leve no ombro.

Ele olhou para o lado. Ao lado havia Outra Pessoa. A Outra Pessoa olhava-o com cuidadosos olhos castanhos. Os cuidadosos olhos castanhos eram mornos, levemente preocupados, um pouco expectantes. As transformações tinham se tornado tão aceleradas que, no primeiro momento, não soube dizer se a Outra Pessoa via a ele ou a Ela, se se dirigia à moldura, à casca, ao cristal ou ao desenho, ao corpo original, às gotas de sangue. Isso num primeiro momento. Num segundo, teve certeza absoluta que se tinha desinvisibilizado. A Outra Pessoa olhava para uma coisa que não era uma coisa, era ele mesmo. Ele mesmo olhava para uma coisa que não era uma coisa, era Outra Pessoa. O coração dele batia e batia, cheio de sangue. Pousada sobre seu ombro, a mão da Outra Pessoa tinha veias cheias de sangue, latejando suaves.

Alguma coisa explodiu, partida em cacos. A partir de então, tudo ficou ainda mais complicado. E mais real.”

- Caio Fernando Abreu

10.26.08

aleatoriedades alienadas

Enviado em Sem-categoria às 7:25 am por joao henrique

eu tenho quase dezenove que parecem pesar quase um túmulo e uma sepultura. tá tudo muito junto e misturado na maior parte do tempo, mesmo nas vezes que é tido como certo o não-haver. o que eu enchia o peito para me caracterizar como eu, foi se perdendo e sendo perdido durante o trajeto; eu perdi, ou meus afagos, ou a satisfação por meio destes, durante esse ano. minhas mais eminentes oportunidades e chances de superações no ano passado. o meu amor próprio, meu talvez último verdadeiro amor e minha avó em 2006. em 2005, foi a vez de não suportar, ceder, se dar por vencido, sendo pouco a pouco consumido. criei expectavivas e novos outros vários por onde em 2004, ao ser invadido de uma certeza fugaz de que as coisas poderiam dar certo e que a vontade era premissa de sensações, no mínimo boas. quando eu tinha catorze, rezava todas as noites para que Deus terminasse com a minha vida, eu suplicava por um fim, ansiava pela minha parte daquele filminho que passa diante dos olhos de qualquer um que se vê indo. 2002 foi o ano se sentir o vazio, defrontar-se pela primeira vez com ele, estranhar, odiar e ser par/cúmplice daquele que seria aquilo que mais me acompanharia pelas pelejas e partes brandas. antes eu projetei pela primeira e única vez as minhas fraquezas naquela que me faria suportar, era 2001, ela era meu primeiro, maior e mais piegas amor que ironicamente não foi correspondido, eu tinha o gosto do primeiro beijo ainda presente na boca, eu não tinha mais ninguém. 2000, além de ter os motivos coletivos que esse número redondo trazia, introjetei nele muitos outros adornamentos que além de não se concretizarem tornaram-se a minha dor, a minha real e mais sincera dor; talvez por um exercício que havia na apostila que fazia a gente imaginar coisas boas, fui inflando tudo aquilo que eclodiu na maior morte de todos os tempos, a do meu pai; chorei, chorei e não foi o suficiente pra trazer de volta a vida dele e a minha. quando tudo ainda era uma foto familiar de criado mudo, eu perdi minha inocência e me foi abocanhado grande parte de minha crença, 1999 exigia isso de mim, por uma sensação infantil de prefácio e pela vida ter mudado muito em 1998. 1998 é o primeiro ano, neste caso o último, que eu posso dizer que lembro, ele foi o ano divisor de águas, ele foi a máxima potencializada de passar uma pedra por cima de tudo. a pedra rolou e vem engolindo todo o resto desde então.

Enviado em Sem-categoria às 5:10 am por joao henrique

pra que serve essa merda, quando você não consegue falar daquilo que realmete incomoda?

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Enviado em Sem-categoria às 4:18 am por joao henrique

joãozinho, joãozinho, você ainda vai se afundar, aí vai rolar, acabar e morrer. reflita.

10.25.08

…mais alta a queda

Enviado em Sem-categoria às 6:36 pm por joao henrique

eu falei para você não dizer “perfeito”.

10.22.08

vestígios de bondade

Enviado em Sem-categoria às 4:22 am por joao henrique

ontem quase fui invadido por uma dor que quase me fez chorar.

10.21.08

have you ever, in you mess, found a chance to hate yourself?

Enviado em Sem-categoria às 2:46 am por joao henrique

all the time, baby

lixo humano, alface, queijo, molho especial, cebola, picles num pão com gergelim.

Enviado em Sem-categoria às 2:39 am por joao henrique

algumas coisas eu não tenho nem coragem de assimilar quem dirá escrever,

mas eu realmente sinto muito por desejar mal a quem eu mais amo

eu tenho raiva do que você pôde ter e eu não

tenho ódio dos fatores, da ordem como as coisas aconteceram, da cronologia

não é sua culpa, lógico que não, mas eu não consigo nem por um momento no injetala em você

me faz querer sumir, desculpa =/

lixo humano

Enviado em Sem-categoria tagged às 2:33 am por joao henrique

não me dou valor, não me dou ao respeito e nem faço por onde, porque eu sei quantas e tantas vezes que a monstruosidade falou mais alto e eu aplaudi, apoiar o lixo tudo bem, apoiar o troço que apoia o lixo não.

algumas vezes, as primeiras, era uma coisa impensada, quase como um fluxo irracional, que quando era , se chegava a ser, percebida, já havia acontecido, não era nada de imperdoável, era só coisas ruins de uma pessoa pequena, nem sequer chegava a ser maléfico.

algumas pessoas simplesmente são feias, me descobri uma dessas vendo uma revista qualquer na espera de uma consulta ainda menos importante. naquela ante-sala folhava o tempo, revista vai, revista vem, e aleatoriamente peguei aquela da capa criativa, lia as menores reportagens por achar que brevemente eu não estaria mais ali, abstraia coisas poucas e bobas, até que quase na metade do períodico me deparei com a reportagem que daria  fim a maldade praticada por mim na inocência e serviria de marco para a perversidade praticada as claras e com gosto.

a matéria contava a história de uma adolescente qualquer que reencontrou seu pai, justo quando ela completava seus quinze anos, a matéria da debutante era um pouco maior do que as que eu vinha lendo, mas ela me intimou e nada me tiraria dali até eu ler a última palavra daquela baboseira gorda. era alguma coisa meio “blábláblá, ele saiu de casa e não voltou mais, blábláblá, a jovem achava que o seu pai não estava vivo, blábláblá” dizia também como foi o desvinculamento e como se deu o tão incrível reencontro. passado essa ladainha vinha outra ainda maior, agora direto da boca grande da pequena menina, dizia os pontos ruins de não ter tido seu pai no início de sua vida, como sofreu apesar de não lembrar de muita coisa(!), o que lhe era contado era triste, pobre menina rica.

tem gente que merece encontrar um pai só pra virar orfã a seguir, céus, ela falava que era insuportável à barra, que ela não sabia se conseguiria superar seus problemas infantis. problemas que ela nem lembrava quais eram! imediatame me subiu uma cólera, que correu feito comichão, eu podia fazer um voodoo daquela cara sínica e sarnenta e ficar horas semeando a dor alheia.  por que o que é melhor? ter um pai numa época que você esquece ou ter um pai numa época que você precisa mais do que qualquer um de suporte, de estrutura? otária, passar dos 0 aos 15 é para os fracos, e o mais microscópico dos problemas, experimente passar dos 15 ou um pouco menos até o seu último suspiro sem o seu velho, pensa, você ganhou um pai enquanto muitos o perdem, você ganhou um pai na época mais delicada de arrancar ele dá sua existência.

te foi dado, caramba. te foi dado… quando você era nova e não tinha um pai, não houve memórias que correram o risco de caírem no esquecimento, você pequena rosa, não se desgastou criando afeto com alguém que tinha uma saúde desmantelada que  se esvaiu antes mesmo de você se dar conta.

…é inadmissível eu sei, a fúria sobressaltou a moral carcomida e desse dia em diante, sempre quando os bons valores são esmurrados surge em minha face um sorriso horripilantemente cretino, e por mais que eu refute em me sentir bem, essas situações me enchem de um indiscritível bem-estar.

desaprovo mas desfruto.

10.19.08

recusa em crescer

Enviado em Sem-categoria às 7:25 am por joao henrique

o problema não esta em avançar na idade, o problema é estagnar na vida.

um ano a mais de vida; um ano a menos de realizações.

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