“eu conheci uma garota de cabelo vermelho, piercing no umbigo, tattoo no tornozelo, olhos cor de mel, nariz arrabitado (…)”
naquele tempo eu passava por várias experiências, das quais muitas não suportava e todas me adoecia. você surgiu como amiga e esse ambiente doente distorceu o que não devia.
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tudo que a gente tinha, era bonito, era o que eu queria, você namorava e eu curtia o meu tempo… seu namorado era um idiota, e algumas das tantas vezes que vocês brigavam, devo dizer que eu gostei, não porque te queria disponível, mas aquilo não era homem, muito menos alguém digno e apto a estar do seu lado. houve aquela vez em que ele te fez sofrer, te fez mulher vulnerável, cara, eu senti meu sangue ferver, lágrimas sem rumo minavam dos seus lindos olhos amendoados, senti a sua voz trêmula e desconsolada, destoando aquela que você era.
foi inadmíssivel aceitar que depois daquela dor, vocês juntos estavam novamente, não era certo. ele te dobrou, te manipulou gostoso, era muito mais do que dava para aturar, era se vender muito baixo, era não perceber o aspecto de mercadoria que aquilo te deu. fiquei perturbado por você estar sendo destruida, tive que ter aquela conversa delicada, tive que abrir seus olhos, expor meus pensamentos, te enaltecer já que mais ninguém parecia fazer isso.
quando vocês terminaram eu continuei te apoiando, zelando seu ser, suprindo a falta que te acometia e apenas ali. abri mão dos meus detalhes banais para passar meu tempo junto a ti. quando você se confessou feliz, feliz também fiquei.
acontece que a sensação de tarefa cumprida, para não variar, me deixou vulnerável; e a tarefa cumprida te deixou vislumbrada. você deu a entender o que queria, daquele seu jeito sutil e certeiro, eu, em suma tentei desentender, inútil, aconteceram outras investidas, outras falas até que criei e assumi o meu compromisso com você.
o compromisso, isso foi de fuder. hoje acho que era por ser muito imaturo, por nunca ter tido uma história convincente com alguém… um adolescente bobo que se espelhava em coisas duvidosas. eu não sabia como me comportar. aquilo foi ficando sufocante, porque enquanto você precisava de atenção, eu só queria permanecer leve. não dei importância, não divulguei nosso novo estado civil, tratei tudo com o mais completo descaso desatento, o seu sentimento pulsava, crescia e me atava, fiquei com inveja intimidado com a sua capacidade de amar, achei que tinha perdido o que eu sentia por você, mas só me dei conta que aquilo que eu disse sentir era apenas o que eu queria estar sentido.
faltou coragem para te manter informada como eu não gostava de você, eu não sabia tocar nesse assunto e resolvi deixar sub-entendido parando de tocar em você. fui frio e egoísta. quando vi, era tarde; havia me tornado o idiota do seu namorado, e dessa vez eu não poderia te ajudar a superar.
Carla
Faz algum tempo que eu te conheço e lembro que os pretextos para o começo das nossas primeiras conversas eram dos mais bobos, típicos de qualquer conversa iniciada no Orkut. Naquele tempo que o azul-calcinha dele ainda era mais calcinha do que de costume. A gente se ‘scrapiava’ com uma grande freqüência e eu gostava cada vez mais do desenrolar que dávamos para cada pequeno assunto e como cada um era tratado com bom-humor e com profundidade, com a repetição desse movimento eu passei a esperar por suas respostas, esperar pela sua disponibilidade, ficando extremamente alegre apenas porque aquilo estava se tornando alguma coisa importante. Tudo muito bem, tudo muito lindo, até que você pediu para adicionar no MSN, céus, fiquei trêmulo, não queria estragar aquilo, e no MSN eu tinha enormes facilidades para. Menti falando que ele vivia falhando, te passei o meu e-mail, troquei a frase do meu Nick, coloquei alguma coisa mais misteriosa e que não se referia mais ao meu passado amargo, te aceitei e disse que ia comer. Na cozinha passei um resto de manteiga em dois pães franceses velhos e os coloquei na frigideira arranhada, enquanto preparava, fiquei com meus imaturos pensamentos, ensaiando como agir, simulando situações, criando anotações mentais de possíveis pautas, pensei de dramas até piadas, mesmo não sendo assim tão bom com elas.
Engoli aquele pão a seco, mastigando devagar tentando adiar um pouco mais o inadiável, queria estar preparado, não queria estragar tudo. Parecia pão, mas era apenas desespero entalando a minha garganta, me acalmei, e voltei para a internet, na hora que eu vi seu nome ali, assinalando que você estava online, não consegui. E se acabassem os assuntos? E se você não fosse tão comunicativa por lá? Fui pro scrapbook e retomei a conversa anterior como se nenhum novo fator tivesse sido inserido em nosso pequeno contexto. Fizemos o de sempre até que você resolveu dar início a nossa janela de conversação no MSN, atitude que na primeira piscada de janela eu disse, por scrap, não ter recebido nada, na segunda, terceira e quarta disse que as minhas mensagens não estavam chegando para você, simulei até uma indignação meia-boca por aquilo não ser justo, denunciei conspirações, fizemos drama. Depois, me achando um pouco preparado e ter feito desse lenga-lenga mais um assunto respondi, conversamos, rimos, trocamos várias fotos para fazer comentários engraçados e/ou maldosos e para continuar se falando. Eu adorei a possibilidade que esse meio de comunicação possibilitava, fotos, músicas, desenhos, manuscritos e nossas conversas já habituais… me esqueci até daquela ansiedadezinha inicial. Havia motivo para tudo, tudo era motivo para mais, você, através das atitudes, só se reafirmou a pessoa incrível que dizia ser, eu que não podia querer mais, tive cada vez mais e mais de você.
08.29.08
priceless.
não é uma simples questão de falar verdades ou mentiras, envolve admitir, ter clareza, ter honestidade, não se enganar e ficar de bem congiso mesmo.
freedom
minha cara, quase sempre tão confusa como todo o mais que sou, nunca deixava transparecer de fato aquilo que eu estava sentindo, talvez isso, desta vez, tenha sido bom, talvez a cara indecifrável trouxesse multipla-interpretações e no meio dessas tantas quem sabe alguma boa, uma que enganasse quem estava prestes a sofrer e me escondesse em um lugar seco e claro.
não era o turbilhão de emoções que eu esperava, era um turbilhão de dúvidas e desilusões… aquele sentimento morno tomando conta de mim, terrível sensação, refluxo incontrolado e inevitável se espandindo, se tornando mais e mais indigesto. para não cometer a indelicadeza de dizer que era ruim, me limito a dizer que não era bom.
não sei ao certo o que eu fiz de mais errado nesse tempo todo, sei que a disputa para estar entre o top5 é bastante concorrida. algumas coisas ficaram bem mais claras desde então, entre elas, o mais estranho, ou mais engraçado, foi perceber as inusitadas formas que o medo pode ter.
mantive aquilo que eu nem quis para fins que nem tive. só a possibilidade que tudo não seria de fato tudo, mais uma vez pela extrema incapacidade de exeternalizar e elaborar por dentro algum sentimento me fez indecente, imoral e sem-vergonha. não me orgulho e até me culpo, mas isso teima em não mudar como naquele tempo não mudou. medo de ficar sozinho, como é terrível e desonesto esse medo, primeiro porque o que me faz sozinho é a minha vontade, segundo porque essa distorção embrulha tudo tão bem aqui dentro, que respirar dói, comer não dá, terceiro porque é a parte egoísta falando alto e ganhando força. o medo da decepção, o medo da falsa projeção cair, o medo do compromisso, o medo de desapontar, o medo de machucar, e tantos outros que não convêm descrever nem ao menos citar… ironia ou não, os maiores medos se consumaram em si, por si só, como quem toma do seu próprio veneno.
foi tudo, menos um corte seco, talvez isso até tenha sido bom, um corte quase cirúrgico deixa sempre aquela possibilidade de juntar as partes de novo. conhecendo bem minha fraqueza e o descaso, sei que a propensão pra isso voltar a acontecer seria grande, não que seja impossível viver sem aquela parte, mas reaprender a fazer coisas costumeiras de um jeito diferente fácil não é.
apesar do estado carcomido que ficou, de todas as inúmeras barbáries feitas, isto foi a melhor aproximação de uma atitude nobre.
e respirar assim é inestimável, além é claro, de não doer. =}}
“…a dúvida é o preço da pureza, e é inútil ter certeza.”
se para continuar tendo pureza é necessário não abrir mão da dúvida…
se a certeza nunca é suprema, nem ao menos suficiente, e a dúvida nunca é extinta do contexto…
agora eu estou sem pureza, sem dúvidas, sem certezas e me sentindo um inútil. what the hell I did with my life?
Wake Up.
I’m not sober all the time
You bring me down at least you try
Until we see this eye to eye
I don’t want you
- Three Days Grace
08.17.08
coisas banais, vidas paralelas.
peguei a xícara recém-lavada ainda no escorredor, despejei aquela água quase boa no seu interior e adicionei duas fartas colheres de café solúvel, adocei a gosto, deixei sobre a bancada e fui lavar minhas mãos sempre tão imundas. enquanto lavava as mãos viajei para lugar nenhum e em lugar nenhum em nada pensei, os olhos do espelho olhavam os fundos dos olhos meus… o vazio despertou calafrios, daqueles que se sentem só quando estamos em lugares inóspitos e abandonados.
volto para a cozinha e vejo os raios do sol que adensam a atmosfera e incidem sobre meu café, meu café depositado naquela xícara trincada, com alguns poucos raquíticos fios de vapor que sobem e logo se perdem. me inclino e tomo aquela bebida ensossa em um só gole para acabar de uma só vez com o ar decadente que aquele precário preparado de cafeína deu a esse bonito dia, tamanha beleza não merece tal leviandade.
peguei um par de meias e as calcei. peguei meu par de chinelo e o calcei; me direcionei até a sacada adimirar o dia, vê-lo passar. fiquei ali debruçado sobre granito encardido e sem brilho, sentindo o vento bagunçando ainda mais o meu cabelo sem corte, formando penteados engraçados, denunciando as minhas tão avançadas entradas capilares. senti o vento vindo de cima deformando temporariamente os cílios para baixo impedindo uma visão nítida do azul, do concreto, das pastilhas cor de vinho do prédio da frente, das rachaduras em seu rejunte que deveria ter a mesma cor das pastilhas, das verdes folhas ainda mais verdes por causa do sol, então abaixo minha cabeça e me divirto com o tom verde que cobre a minha pele devido a minha camiseta cintilante.
fico ali, sendo surrado pela força do vento e gostando, até que escuto uma cantada leve de pneu, daquelas ocasionadas por curvas feitas sem cuidado, espero até que o carro em questão apareça no meu campo de visão, e ao ponto que ele se aproxima, pude escutar também uma melodia, uma batida rápida, desconheço quem canta, mas era melódica. vi o carro que coincidentemente estacionou na frente do meu prédio com a mesma falta de cuidado de antes.
de dentro dele sai um casal, o homem sai com mais pressa e vai para trás do carro, a mulher sai e fica algum tempo ali agachada arrumando suas coisas que parecem estar espalhadas por todo o carro, porta-luvas, compartimento lateral, entre outros.
coloca tudo em sua bolsa de qualquer jeito e vai de encontro para aquele que parece ser o seu namorado, se beijam rápido, mas de um jeito bastante intenso, ele desce a sua mão direita até a cintura dela, pára, e com o polegar faz um carinho. ela põe sua mão esquerda na nuca do rapaz e quando o beijo acaba ela se afasta escorregando seus dedos da nuca até o peito, depois braço, depois mão, depois o ar e por fim os movimentos normais que um braço executa quando o corpo está em movimento. quando ela já está na calçada ele diz com felicidade e entusiasmo as palavras “até amanhã, amor”.
depois de alguns segundos com uma cara boba de satisfação ele remexe seus bolsos e tira de um deles uma carteira de cigarro, acende um com o isqueiro do carro e vai se sentar nas escadinhas que servem de entrada para o um terreno que não chega a ser baldio, é mais como uma data vazia esperando ser adiquirida, ser cuidada, virar algo. ao lado das muretas brancas e descascadas ele desfruta do seu cigarro em um ritual de quase comemoração.
o rapaz olha para o meu prédio, sem prender a visão em nenhum andar, em nenhuma janela, provavelmente a moça mora em um dos apartamentos que ficam de costas para a rua, ele passeia com a sua visão pelo edifício como se esse fosse a coisificação de sua menina. no seu carro começa a tocar uma música que em um de seus versos diz mais ou menos isso: “eu tenho a certeza que vou te encontrar”, o fumante olha com os olhos sorridentes pro som e no lábio estampa um sorriso de objetivo alcançado.
ele fica mais um bom tempo naquela repulsiva escada, bem aconchegado, pensando, fumando, cantarolando. eu fico mais um bom tempo na sacada encardida, sentindo o vento, lembrando de coisas que essa cena trouxe a tona, imaginando. dois caras distintos pensando em seus amores.
