marco zero.
era aquele tempo em que uma tristeza, independente do seu grau, ainda era chamada apenas tristeza.
eu me lembro dessa em especial: ela surgiu no final de uma tarde quente qualquer e passou a me acompanhar; o tipo de tristeza que a gente não sabe a causa, mas percebe que a conseqüencia não é saudável, e assim foi. o que no começo era novidade ao passar de duas semanas ou um mês já era característico. como ela sufocava, me deixava tão inquieto que nesse curto espaço de tempo a calmaria deu espaço para uma presença alucinada sempre agitada que só perdia espaço a altas horas da madrugada quando o corpo finalmente acabava com o sofrimento que era estar acordado.
possou dois meses, passou três… e aquilo se tornou minha voz, era estranho ver uma criança daquela idade tão transformada em amargura. as brechas eram tão rápidas que só eram percebidas depois de algum tempo, um exercício de assimilação banal. acontece que nesse período de sessenta ou noventa dias os pensamentos acharam motivos abundantes para evidenciar que aquela criança não estava em seu estado natural.
os motivos não poderiam ser mais evasivos. motivos que uma criança de nenhuma forma conseguia encarar. todos os dias essa criança que sobreviveu e hoje escreve pensava em não pensar, bloqueava cada ponta cortante, driblava situações de um jeito desconsertante.
o resultado não poderia ser diferente, uma pedra foi posta de um dia em diante e eu pude seguir do começo.
a solução daqueles era desconhecida assim como as de hoje ainda são… eu perdi esse comportamento infantil de ignorar e seguir, mas chega uma hora que esta é a única coisa a se fazer. esse dissernimento todo deve ter ficado preso na pedra. eu não posso voltar lá. eu preciso de um marco zero. o último.
Family Portrait.
apontar o dedo e denunciar o culpado de modo no mínimo escancarado, nem que para tanto seja preciso forjar um, mostrar como a vida de um emaranhado de pessoas se tornou subitamente em uma tela digna de Picasso.
um nó que prende e divide, sufoca e salva
emaranhado de pessoas emaranhadas e ainda assim sós e perturbadas. o chão que parece nunca firmar, as paredes e vigas que não sustentam, tudo isso é tão traiçoeiro. falta de segurança e/ou intimidade as fazem acreditar friamente que a vida é sofrida, que o cotidiano é um caos e que as pessoas são más.
tantos humanos gritando as mesmas palavras de abandono, gritam ensurdecedoramente que se esquecem do detalhe de ouvir e com isso nem imaginam que existem milhares de vozes em uma só canção.
os defeitos chegam a encantar apenas porque nos indentificamos com o drama, mesmo não intendendo essa confusão que se fez, contextos, entre-linhas, linhas, atos, gestos… uma tela premiada.
desconexo
tem sido um esforço desproporcional para que mesmo a menor coisa de algum modo, mesmo que não seja o meu, faça ou tenha sentido.
é, e até quando eu tenho sanidade o suficiente para não cair nesse papinho de pura abstração, que envolve esperar, aceitar, superar e todos os efeitos milagrosos que o tempo exerce, sou arrastado até ele de modo ‘inescapável’.
teimo em adimitir que as coisas ainda podem ser de outra maneira, mesmo descarregando esse discurso sobre o poder curandeiro do tempo a torta e direita para terceiros. teimo, minto, forjo uma cena, invento outra.
me pego articulando com o tempo e espaço de jeito desesperado e impensado porque até o viver o dia parece caótico, tamanha falta de sentido que se fez da vida e essa por sua vez fez comigo.