desde criança ela já possuía aquele jeito de menina especial facilmente percebido pela indiferença com que tratava as barbies, que por sinal ganhava a granel devido à sua favorável situação econômica; situação mesmo que cômoda não fazia o seu ego inchar.
ela tinha ainda aqueles olhos singelos e profundamente negros que casava perfeitamente com o seu sorriso cativante. sua vida infanto juvenil era dedicada as pequenas causas que a sua ingenuidade julgava importante, e que maravilhosa ingenuidade existia nessa garotinha que passava horas e horas com os animais que encontrava feridos no sítio de seu avô.
todos a achavam especial, ela tinha total certeza disso, e agradecia incansavelmente a Deus pela sua vida, agradecia por ter essa família maravilhosa e grande que a cercava, agradecia por ter o que comer, com o que brincar, agradecia por ter condições necessárias para viver; enfim agradecia essas coisas que toda criança deveria agradecer.
Deus realmente fez um brilhante trabalho com ela, que cresceu de forma ímpar e sem maiores ressalvas… porém, talvez pela vida que teve, a garotinha não acreditava no poder que os homens de má fé possuiam, talvez se acreditasse não faria muita diferença. a sua infância passou, bem como a sua família que havia sido vítima de uma barbaridade sem tamanho apenas por ser realizada; coisa que todo ser humano deveria ser.
parecia muito que essa menina espetacular havia morrido com o resto de sua família naquele dia. o seu ‘eu’ sofreu severas mutações, tudo acontecia de forma intensa e misteriosa no lado de dentro, era dor demais para ela suportar, era uma dor com que ela não estava habituada devido ao seu modo de vida que sempre colocava o coletivo em primeira ordem, se antigamente tudo dava errado conversar poderia resolver isso, agora não. ela não intendia. não é fácil intender.
em questão de meses ela já estava irreconhecível, se tornara tristemente um ser voltado para a imagem, onde a cor e o corte do seu cabelo era o que fazia seu dia acontecer. para o seu novo eu isso era maravilhoso pois mantinha tudo em seu controle com um simples olhar. era indiscrítivel a sensação de controle que tinha apenas olhando no espelho, já que na imagem tudo o que deve ser visto está à mostra o que não acontecia mais na névoa de pensamentos que ela tentava liqüidar.
ela ainda falava com Deus, e agradecia por ser favorecida de beleza, e pelas inovações estéticas que a deixava ocupada o suficiente para não se acabar em memórias de um passado sem volta.
ela que tratava as suas barbies com descaso hoje as odeia, odeia estar irreconhecível em seu mundinho. ela ainda ousa a se machucar, para sentir que ainda é possível sentir. ela sente seu organismo arruinando e fica aliviada por ver.