12.20.09
Estômago embrulhado,
Pescoço enrijecido,
Cabeça latejando,
Visão esbranquiçada.
O corpo é uma prisão.
de algum caderno qualquer
Todos os sonhos que eu tive
Serviram para me mostrar que eu não devo fechar os olhos
Que não posso ser convencido pelo pote de ouro inexistente ao final de cada arco-íris ilusório
Todos os passos que eu dei
Toda a marcha rumo a qualquer coisa
Era na verdade para lugar nenhum
Eu que na verdade, de verdade, não sai do lugar
Gastei a energia que eu roubei das coisas que, sem nenhum consentimento, possuí
Tarde da noite desse tempo que não tem mais sol
E sombras servem de morada para todo o delírio despendido
Febril,
Fazendo-se em pedaços cada vez menores e
Cada vez mais característico da auto-destruição
A geração da identidade corrompida com todas as suas marcas
Próximo de ficar distante de mim
Cada vez mais próximo,
Cada vez mais distante
Porque o fim do mundo
Não chega ao fim
Por que o fim do mundo não chega ao fim?
Não chega
E o mundo não é acessível
Não é habitável
Não é mundo
A bolha toxica do narcisismo
A casca autística inquebrantável
Eu não sendo você,
Fui, aos poucos, o eu que nada conseguiu ser além da diferenciação do indiferente.
Tinha muita coisa, não tinha o suficiente.
12.17.09
azul
Alexandre, quando eu recebi essa triste notícia, inevitavelmente essa foi a primeira lembrança que me veio em mente, mesmo com você sempre se lembrando, e compartilhando, daquele dia em que meu irmão atirou soja em você com um estilingue feito de boca de garrafa pet e bexiga.
A gente não tinha ainda nem dez anos de idade, as empatias eram desenvolvidas com muita facilidade, éramos crianças, tínhamos sonhos, tínhamos chão; na cabeça de um menino de quase 10 anos não existem muitas preocupações, tudo se resumia em aproveitar o presente. A gente tinha combinado alguma coisa durante a aula, depois do almoço falei com a minha mãe, e perguntei se você podia ir em casa, ela deixou, eu te liguei, você falou alguma gracinha e ficou de descer em casa.
Um século depois, tempo que só uma criança que vive a espera exasperante para começar a brincar pode entender, você chegou em casa, a gente foi direto pra garagem jogar Pokémon de tabuleiro, honestamente não me lembro quem ganhou, depois de duas partidas o tédio já era grande.
Foi então que você propôs um jogo, não era bem uma competição, era mais uma atividade, meio que um jogo pedagógico, cada um pegava uma folha de papel e escrevia uma lista de adjetivos. Depois da agilidade inicial os adjetivos foram ficando escassos, escassos, até que ficou muito difícil lembrar sozinho, e a gente começou a fazer um brainstorm para lembrar ou inventar o máximo de adjetivos possíveis, não importava se era pejorativo, ou bom, a gente tinha que escrever todos, para depois colocá-los dobradinhos dentro de um copo de alumínio. A nossa audaciosa meta era encher ele até a boca, para depois brincar de ficar passando o copo de pessoa para pessoa, para que todo mundo fosse definido pelo copo. O copo era tipo um vidente profético.
Você falou para colocar “azulão”, eu perguntei se isso era um xingamento ou um elogio, e você disse que era uma coisa boa, porque azul dá uma sensação boa, o azul é a cor do céu, algo assim…
Enfim, a brincadeira continuou, bem como a nossa amizade, até o dia que algumas coisas aconteceram na minha vida e algumas coisas aconteceram na sua, e a gente, aqui talvez mais eu do que você, acabou se distanciado. Confesso que eu fui muito descuidado com a nossa amizade, fui relapso, não fui justo, na época não entendia bem o que era ter melhores amigos, nem sabia ao certo como bons amigos deveriam ser tratados… o tempo passou e a gente aparentemente superou todos os traumas que permearam a nossa infância, cada um, no seu quadrado, sobreviveu.
Infelizmente, apenas nesse ano, quando a Deka disse que você havia dito para ela que nós, nos findos tempos, já tínhamos sido melhores amigos e que depois disso você sofreu bastante com o distanciamento que aconteceu, é que eu fui delineando as dimensões de como as coisas foram se desdobrando, como o passado de fato foi. Foi com grande pesar que admiti a perda de uma amizade por descuido. Em alguma dessas noites dos sempre gloriosos finais de semana em Campo Mourão, depois de se divertir, e passar na sua casa, você disse que era bom estar recuperando a nossa amizade, eu disse que realmente era. Como de costume, cada um voltou para sua rotina, você vinha conversar comigo no MSN às vezes, eu nem sempre tava disponível, nem sempre deixava a conversa se desenrolar, mas em todas essas vezes, em cada uma dessas conversas, e em outros momentos que eu me dedicava a pensar na minha vida, sentia a necessidade de se dedicar mais para essa amizade. Esse plano era sempre adiado pela dificuldade que eu tenho de cumprir minha rotina, mas era um plano, era algo que eu queria e sentia necessidade de fazer, mas era sempre deixado para depois.
Agora ainda em rotina, ainda com esses planos na cabeça, não existe mais esse depois. Eu falhei com você e parece que foi duas vezes, sinto muito, de coração, muito, por não ter estado ali para o que fosse preciso. Eu sinto muito que você tenha chegado em tal extremo. Você foi uma pessoa muito boa, boa demais para um mundo hostil e mau, azul em um mundo que, por se esquecer de admirar a beleza das cores, tornou-se cinza. Você se foi novo, mas pode se orgulhar de todo o amor que viveu, sentiu, compartilhou, criou e foi. Fica com Deus, encontre sua paz.
12.11.09
Memória de minhas putas tristes.
“Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia com um sorriso maligno, você vai ver.”
- Gabriel García Márquez
12.02.09
A passagem das horas
[...]
Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei…
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos…
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que eu senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou o que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.
[...]
Não sei se a vida é pouco ou de mais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consanguinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contactos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.
Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre arvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, oh vida.
Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
E preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas…
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca…
Que há-de ser de mim? que há-de ser de mim?
Correram o bobo a chicote do palácio, sem razão,
Fizeram o mendigo levantar-se do degrau onde caíra.
Bateram na criança abandonada e tiraram-lhe o pão das mãos.
Oh mágoa imensa do mundo, o que falta é agir…
Tão decadente, tão decadente, tão decadente…
Só estou bem quando ouço música, e nem então.
Jardins do século dezoito antes de 89,
Onde estais vôos, que eu quero chorar de qualquer maneira?
Como um bálsamo que não consola senão pela idéia de que é um bálsamo,
A tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco, monótona, cai.
Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se.
Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver.
Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente.
Estou no caminho de todos e esbarram comigo.
Minha quinta província,
Haver menos que um comboio, uma diligencia e a decisão de partir entre mim e ti.
Eu fico, fico… Eu sou o que sempre quer partir,
E fica sempre, fica sempre, fica sempre,
Até a morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica…
[...]
- Fernando Pessoa
11.27.09
octaedro
“não é possível que nos separemos assim, antes de nos termos encontrado.”
- manuscrito achado no bolso, Julio Cortázar
eu não sou eu, nem sou o outro
Indivíduo e sociedade só existem na relação;
a relação é o indivíduo, as relações são a sociedade
11.19.09
everybody’s changing
So little time
Try to understand that I’m
Trying to make a move just to stay in the game
I’m trying to stay awake and remember my name
But everybody’s changing and I don’t feel the same
- Keane
11.16.09
de algum caderno, sobre qualquer coisa
se por um lado você não tem lado, você também não tem dentro, tudo é fora, tudo é ambiente, nada é você, uma brisa perpassa, um ar quente e pesado estagna. nada sendo, se é aquilo que sempre temeu, nunca se evitou e pouco se importa.
11.14.09
octaedro
“… pela primeira vez em mim mesmo como num incrível país estrangeiro.”
- manuscrito achado no bolso, Julio Cortázar
